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Anthropic comprou e destruiu milhões de livros para treinar sua IA

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Uma investigação judicial trouxe à tona um detalhe pouco conhecido, e bastante controverso, dos bastidores da inteligência artificial: a Anthropic, empresa por trás do chatbot Claude, comprou milhões de livros físicos, digitalizou o conteúdo e destruiu os exemplares originais como parte do processo de treinamento de seus modelos de IA. O caso, revelado por documentos de um processo judicial e por uma investigação do 404 Media, terminou em um acordo bilionário aprovado em julho de 2026. Vamos separar o que é fato comprovado do que é especulação, e entender o que isso realmente significa.

A Biblioteca de Alexandria, no Egito Antigo, chegou a reunir entre 500 mil e 700 mil rolos de papiro, reunindo praticamente todo o conhecimento científico e literário do mundo antigo.

O que realmente aconteceu, segundo o processo judicial

O caso veio à tona através do processo Bartz v. Anthropic, movido por autores e editoras contra a empresa. Segundo depoimento de Tom Harvey, que antes de liderar o projeto de digitalização da Anthropic havia trabalhado na criação do Google Books, a empresa contratou diversas companhias especializadas em escaneamento de documentos para um projeto interno batizado de “Project Panama”. Uma dessas empresas, a Datamation Information Services, oferece tanto digitalização não destrutiva quanto o método destrutivo: os livros são desmontados fisicamente, com as páginas alimentadas individualmente em scanners industriais de alta velocidade. A lógica por trás da escolha é puramente econômica, o método destrutivo é mais rápido e mais barato. Os livros usados nesse processo foram adquiridos legalmente, em sua maioria através da plataforma de venda de livros usados Better World Books.

O outro lado do processo: os livros piratas

Existe uma segunda camada nesse caso, frequentemente confundida com a primeira: paralelamente à compra e digitalização de livros físicos, a Anthropic também havia baixado e armazenado mais de 7 milhões de arquivos provenientes de bibliotecas digitais piratas, como o LibGen e o Pirate Library Mirror, formando aquilo que os documentos judiciais chamam de “biblioteca central” da empresa. O tribunal tratou essas duas práticas de forma bem diferente.

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O que a Justiça decidiu, e o que isso significa

Em junho de 2025, o juiz federal William Alsup decidiu que treinar modelos de IA usando livros legalmente comprados se enquadra no conceito de fair use (uso justo) previsto na lei de direitos autorais dos Estados Unidos, por se tratar de um uso considerado “altamente transformador”. Importante frisar: a decisão não determinou que os livros fossem destruídos, nem autorizou de forma irrestrita qualquer tipo de treinamento, ela apenas reconheceu como lícita uma operação em que a destruição do objeto físico fez parte da lógica usada para justificar a cópia digital.

Já em relação aos livros baixados de fontes piratas, o entendimento foi outro: a simples formação dessa “biblioteca pirata”, segundo o tribunal, não está protegida pelo fair use. Foi justamente essa parte do caso que levou a Anthropic a fechar, em 20 de julho de 2026, um acordo de US$ 1,5 bilhão com autores e editoras, o maior acordo já registrado em um processo de direitos autorais nos Estados Unidos.

Por que empresas de IA estão atrás de livros físicos antigos

A reportagem do 404 Media que expôs o caso aponta um motivo estratégico por trás dessa corrida: livros impressos publicados antes de 2022 representam hoje um dos poucos grandes reservatórios de dados “pré-IA” ainda disponíveis. A lógica é a seguinte, grande parte do conteúdo que circula atualmente na internet já foi gerado (ou contaminado) por inteligência artificial, e treinar um novo modelo com esse tipo de material tende a produzir um efeito de degradação progressiva, como uma cópia de uma cópia que perde qualidade a cada nova geração. Livros físicos anteriores à explosão da IA generativa, portanto, viraram uma espécie de matéria-prima valiosa e escassa para o setor.

Isso já aconteceu antes na história?

Sim, embora nunca exatamente nesses termos. A história é marcada por episódios em que o acesso ao conhecimento escrito foi drasticamente afetado, com consequências duradouras para a humanidade:

  • A Biblioteca de Alexandria, no Egito Antigo, chegou a reunir entre 500 mil e 700 mil rolos de papiro, reunindo praticamente todo o conhecimento científico e literário do mundo antigo. Sua destruição gradual, ao longo de séculos por incêndios, negligência e conflitos, é até hoje debatida por historiadores, mas o consenso é claro: uma quantidade imensurável de conhecimento se perdeu para sempre, sem que jamais soubéssemos exatamente o que continha.
  • Os queimas de livros nazistas, na década de 1930, destruíram obras consideradas “não-alemãs” ou contrárias à ideologia do regime, um exemplo histórico de destruição deliberada e ideológica de conhecimento.
  • Do lado oposto, a invenção da prensa de tipos móveis por Gutenberg, no século XV, teve o efeito inverso: democratizou o acesso a livros que antes eram copiados manualmente por monges, um processo lento e caro, e é apontada por historiadores como um dos maiores impulsionadores da alfabetização e do avanço científico da história ocidental.
  • Mais recentemente, o próprio Google Books, projeto no qual Tom Harvey trabalhou antes de ir para a Anthropic, já havia enfrentado processos judiciais na década de 2010 por digitalizar milhões de livros sem autorização prévia de autores, um caso que também ajudou a moldar o entendimento legal sobre fair use aplicado a acervos literários.
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A diferença fundamental do caso atual

O que torna o episódio da Anthropic particularmente delicado não é exatamente a destruição em si afinal, livros usados são descartados o tempo todo em processos de reciclagem, mas o contexto e a escala: exemplares que poderiam continuar circulando, sendo lidos, emprestados ou revendidos, foram deliberadamente desmontados e triturados em nome da eficiência de um processo industrial de treinamento de IA. Trata-se de uma tensão nova: pela primeira vez na história, a “matéria-prima” sendo consumida não é o conhecimento em si, que é preservado digitalmente, mas o objeto físico e sua função cultural e social de circular fisicamente entre leitores.

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Como isso pode afetar a cultura de leitura

Especialistas em preservação cultural apontam alguns riscos concretos dessa prática em maior escala:

  • Redução da circulação de livros usados, um mercado que historicamente ajuda a democratizar o acesso à leitura para quem não pode comprar exemplares novos
  • Perda de exemplares raros ou com anotações únicas, já que nem todo livro adquirido em massa por essas operações é cuidadosamente triado antes da digitalização destrutiva
  • Concentração do conhecimento em poucas empresas, que passam a deter cópias digitais privadas de obras que antes existiam fisicamente e de forma distribuída em bibliotecas, sebos e estantes pessoais ao redor do mundo

O que vem por aí

O acordo de US$ 1,5 bilhão fechado pela Anthropic é visto por analistas como um marco que deve influenciar diretamente como outras empresas de tecnologia lidam com acervos protegidos por direitos autorais daqui em diante. Ao mesmo tempo, a prática de comprar e digitalizar (ainda que sem necessariamente destruir) livros físicos deve continuar sendo atraente para o setor, justamente pela escassez de dados de alta qualidade “pré-IA” disponíveis livremente na internet. Não há, até o momento, uma legislação específica nos Estados Unidos ou em outros países que trate diretamente da destruição física de livros nesse contexto, o que sugere que esse ainda é um debate legal e ético em construção, e não um capítulo encerrado.


E você, acha que a destruição de livros físicos para treinar IA é um preço aceitável pelo avanço tecnológico ou representa uma perda cultural real? Deixa sua opinião nos comentários e continua no Blog pra acompanhar os desdobramentos desse debate!

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